Uma pessoa que tenha ouvido absoluto é capaz de identificar uma nota musical sem a necessidade de uma outra nota ser dada como base de referência. A nota mais comumente usada como referência é o lá (A). Numa orquestra, por exemplo, os instrumentos são afinados de acordo com um A, normalmente tocado pelo primeiro violinista.
Uma analogia muito boa (roubada do artigo) pode ser feita com nossa habilidade de identificar cores. Precisar de uma nota de referência (como o lá) pra saber uma segunda nota é, por exemplo, como precisar primeiro ver um objeto vermelho (e ter a informação de que ele é vermelho) antes de identificar um segundo objeto como azul.
Ser capaz de reconhecer cores absolutamente é algo trivial, mas são poucas as pessoas que conseguem fazer o mesmo com notas musicais.
Os cientistas fizeram testes de reconhecimento de notas musicais com mais de duas mil pessoas, via internet. Essas pessoas foram recrutadas em escolas de música ou em sites especializados em música na internet, e mais ou menos 80% das pessoas afirmaram ter estudado música por 6 anos ou mais. Dessas pessoas, 44% foram avaliadas como tendo ouvido absoluto.
A primeira conclusão é que pessoas com ouvido absoluto acham mais freqüentemente que uma nota é mais aguda do que ela realmente é (dizendo, por exemplo, que um si é um dó) do que o oposto. E que isso piora com a idade, ou seja, pessoas mais velhas cometem esse erro mais freqüentemente. Pessoas que não têm ouvido absoluto tendem a errar as notas aleatoriamente.
Outro resultado interessante é que pessoas com ouvido absoluto erram muito a identificação de notas próximas do A, como o sol sustenido (G#). Só metade das pessoas acertou a nota quando um G# foi tocado, e metade dos que erraram confundirram o G# com o A.
A expicação para isso é a seguinte: por conta do A ser usado como nota de afinação, e por conta de várias freqüencias diferentes acabarem sendo usadas pra afinar o A (além da tradicional 440hz), músicos acabam se acostumando a incluir o G# (e também o A#) numa larga categoria 'A', e isso acaba os confundindo.
O mesmo efeito ocorre com línguas ou cores. Se a língua que você fala só tem dois sons pra uma vogal, vai ser difícil pra você identificar cinco diferentes nuances dessa vogal, quando você está aprendendo uma língua estrangeira. Do mesmo modo, esquimós são capazes de reconhecer sei lá quantos mil tons de branco, enquanto outras pessoas vão reconhecer apenas dois ou três.
O engraçado é que erros de identificação do A# não são nem de longe tão freqüentes quanto os erros com G#. Uma soma dos dois resultados acima explicam isso. O fato do A# estar muito próximo do A é "cancelado" pelo fato de que as pessoas tendem a errar as notas pro agudo, não pro grave. Com isso, as pessoas acabam acertando o A# muito mais do que o G#.
Essa distorção relacionada com o G# não aconteceu quando as pessoas, ao invés de ouvirem uma nota pura, ouviram uma nota tocada no piano, onde freqüências secundárias estão incluídas. A explicação pra isso é que pianos estão quase sempre afinados com o A a uma freqüência de 440hz, de modo que as pessoas não se acostumaram a um A com uma freqüência imprecisa, como no caso da nota pura.
Por último, os cientistas acreditam que ter ouvido absoluto é algo que requer a soma de uma predisposição genética com o estudo de música quando criança. Eles também acham que essa capacidade é controlada por apenas um ou poucos genes, porque as pessoas estão basicamente divididas em dois grupos: aqueles que não têm ouvido absoluto, e cujos resultados no teste foram basicamente aleatórios, e aqueles que têm ouvido absoluto, cujos resultados foram consistentemente bons. Apenas muito poucas pessoas tem algo como 'meio' ouvido absoluto, ou seja, acertam mais notas do que a média mas não o suficiente para serem consideradas como tendo ouvido absoluto.
Texto de Grasiela Grise inspirado no artigo "Dichotomy and perceptual distortions in absolute
pitch ability" da Revista americana "Proceedings of the
national academy of science" . Confira o blog da Grasiela em http://quase-de-verdade.blogspot.com.br/2007/09/ouvido-quase-absoluto.html
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